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O papel da tradução nos estudos de francês para o CACD

Umberto Eco escreveu um livro sobre tradução intitulado Dire quasi la stessa cosa” (Dizer quase a mesma coisa, em português). O título é incrível, porque traz em si a definição de Eco para a tradução. Logo nas primeiras páginas, ele diz ser impossível dizer a mesma coisa em outro idioma, dentre outros motivos, por não sabermos exatamente o que é a coisa que desejamos traduzir. A solução seria, então, contentar-se em dizer quase a mesma coisa.

Curiosamente, ao analisarmos as capas dos livros em italiano e em francês, já podemos ter um bom exemplo do que o autor queria transmitir. Perceba bem as semelhanças e as diferenças entre as duas edições, focando, é claro, na tentativa de traduzir a mensagem das imagens.

Essa ideia do quase nos desobriga a tentar buscar o mesmo, já que provavelmente não conseguiremos fazê-lo. Na maior parte das vezes, temos que eleger o que vamos deixar e o que vamos retirar de nosso texto. O próprio Eco traz um exemplo interessante: no texto, deparamos com a expressão It’s raining cats and dogs”. Como traduzi-la? Obviamente, traduzir literalmente não seria a melhor solução, devemos buscar uma expressão que, em português, corresponda à ideia que está chovendo muito, como Está chovendo a cântaros” ou, em bom nordestinês, Tá um toró danado”. Existem muitas formas de traduzi-la, você mesmo já deve ter pensado em algo mais usual para a sua realidade.

Na situação acima, ainda podemos ter que lidar com a tradução literal, caso quem tenha proferido esta frase sofra, por exemplo, de uma fobia de cães e gatos, e esteja realmente incomodado com a chuva. Dessa forma, nossa tradução estaria perdida, porque chover gatos e cães” não possui relação alguma com a quantidade de precipitações pluviométricas.

Quase toda tradução acarreta uma perda e precisamos estar prontos para lidar com ela e para fazer escolhas. Tecnicamente, a palavra tradução se refere à passagem de um texto em um idioma estrangeiro para o nosso idioma nativo. O sentido contrário, ou seja, do nosso idioma para um estrangeiro, é chamado versão. O nome muda, mas as escolhas e as dificuldades continuam sendo as mesmas, ou até maiores, já que precisamos estar atentos à naturalidade de um idioma com o qual não temos tanta intimidade.

A naturalidade é fundamental para a qualidade da nossa tradução e da nossa versão. Muitas vezes, por medo de alterar o sentido do texto original, optamos por estruturas que não soam naturais em nosso próprio idioma. Lembre-se que você é falante do português e é mais que absolutamente capaz de julgar se algo soa estranho ou não. Na versão, a dificuldade é identificar o que soaria natural no idioma estrangeiro, dificuldade que pode ser superada com muita prática e com bastante leitura.

A prova de francês para o CACD contém apenas duas questões: uma versão e um resumo. Neste texto, exploraremos apenas a primeira. Se a questão é de versão, por que o título deste artigo inclui apenas a palavra tradução? Justamente porque pretendo mostrar a sua importância no processo do domínio do exercício de versão.

O português nos dá segurança, é uma língua que já conhecemos, sobre a qual já temos domínio, o que, por si só, já facilita bastante o processo de pensar em dois idiomas. Quando vemos uma frase em francês, por sua origem latina e por sua similaridade com o português, é bem provável que consigamos traduzir diversas palavras para o nosso idioma. Vamos a um exemplo? A frase a seguir é de um autor francófono, do estudioso do colonialismo e poeta Aimé Césaire:

Une civilisation qui s’avère incapable de résoudre les problèmes que suscite son fonctionnement est une civilisation décadente. 

Aimé Césaire

Não é uma frase simples, mas tenho certeza de que você conseguiu entender quase tudo. As palavras são muito transparentes. Talvez a dificuldade tenha sido o verbo s’avérer”, mas uma consulta rápida ao dicionário resolveria o problema e teríamos duas opções para traduzi-lo: revelar-se e mostrar-se. Qualquer uma delas se encaixaria perfeitamente na frase.

A compreensão vem antes da expressão. A frase Entendo, mas não falo” é clichê, mas não deixa de ser verdadeira. Eu mesmo experiencio esse fenômeno constantemente com o espanhol. Consigo ler García Márquez no original sem dificuldades, mas quando vou me expressar, pareço uma criança. Traduzir textos do espanhol para o português não seria um problema, mas verter do português para o espanhol, sim.

Por este motivo, em meus cursos, eu também trabalho com tradução, principalmente quando estamos começando. Ela nos dá segurança e nos permite construir a primeira ponte entre os dois idiomas. É claro que não vamos conseguir verter bem se continuarmos em nossa zona de conforto, é preciso avançar e criar coragem para enfrentar a versão. Duas ferramentas podem nos ajudar bastante no processo:

1. Vocabulário: para desenvolver o seu vocabulário, indico o uso da tecnologia da repetição espaçada, a partir de aplicativos como Anki e Quizlet. Nesses aplicativos, você pode criar as listas de palavras que você deseja aprender e praticar com flashcards e exercícios. As palavras que você errar mais, aparecerão mais para você, seguindo a curva do esquecimento de Ebbinghaus.

2. Gramática: o estudo da gramática é fundamental para escrever sem erros. Conhecer o funcionamento do idioma vai facilitar a sua vida e diminuir as suas dúvidas na hora de verter um texto. Aconselho usar gramáticas como a Grammaire en dialogues e a Grammaire progressive du français. Ambas possuem explicações sucintas e diversos exercícios de fixação.

Por falar em exercícios, o que acha de praticarmos um pouco a tradução? Vou deixar cinco frases para você traduzir para o português. Se precisar, pode consultar algumas palavras no dicionário:

a. La vie est belle.
b. Tout est possible.
c. Une mauvaise personnalité détruit un beau visage.
d. La fin d’une chose marque le commencement d’une nouvelle. 
e. Je pense, donc je suis. 

Foi difícil? As respostas estão lá no final do artigo, para você conferir o seu desempenho. Agora, o que acha de aumentarmos o desafio e partirmos para um texto retirado do Le Monde Diplomatique? Dispus as versões em francês e em português em duas colunas, para você poder fazer a leitura comparada. Essa é uma ótima forma de aprender novo vocabulário e novas estruturas. O último parágrafo do trecho abaixo será de sua responsabilidade.

Quand tout remonte à la surface

Avec les « gilets jaunes », un pouvoir trop sûr de lui et prétendant servir de modèle à l’Europe a dû céder devant la révolte de groupes sociaux jusque-là peu mobilisés collectivement. En un mois, transports, fiscalité, environnement, éducation et démocratie représentative ont été remis en cause.

À Paris, le 15 décembre 2018, trois « gilets jaunes » se relaient place de l’Opéra pour lire une allocution adressée « au peuple français et au président de la République, Emmanuel Macron ». Le texte annonce d’emblée : « Ce mouvement n’appartient à personne et à tout le monde. Il est l’expression d’un peuple qui, depuis quarante ans, se voit dépossédé de tout ce qui lui permettait de croire à son avenir et à sa grandeur. »

Quando tudo sobe à superfície

Com os coletes amarelos”, um poder seguro de si e querendo servir de modelo para a Europa teve de ceder diante da revolta de grupos sociais até então pouco mobilizados coletivamente. Em um mês, transportes, cobrança de impostos, meio ambiente, educação e democracia representativa foram colocados em questão.

Em Paris, em 15 de dezembro de 2018, três coletes amarelos” se revezavam na Casa da Ópera para ler uma mensagem dirigida ao povo francês e ao presidente da República, Emmanuel Macron”. Já de início, o texto anunciava: Este movimento não pertence a ninguém nem a todos. Ele é a expressão de um povo que, há quarenta anos, se vê despojado de tudo que lhe permitia acreditar em seu futuro e em sua grandeza”.

En moins d’un mois, la colère inspirée par une taxe sur les carburants a ainsi débouché sur un diagnostic général, à la fois social et démocratique : les mouvements qui agrègent des populations peu organisées favorisent leur politisation accélérée. Au point que le « peuple » se découvre « dépossédé de son avenir » un an et demi après avoir porté à sa tête un homme se targuant d’avoir balayé les deux partis qui, depuis quarante ans justement, s’étaient succédé au gouvernement.

Em menos de um mês, a raiva inspirada por um imposto sobre os combustíveis desembocou num diagnóstico geral, tanto social quanto democrático. Movimentos que agregam populações pouco organizadas favorecem a politização acelerada destas últimas– a tal ponto que o povo” está se descobrindo despojado de seu futuro” um ano depois de ter levado à direção dele um homem que se jactava de ter varrido os dois partidos que, por quarenta anos precisamente, se haviam sucedido no governo.

O exercício abaixo é apenas de apreciação. Para entendermos melhor o que Umberto Eco nos diz sobre dizer quase a mesma coisa, trouxe três traduções diferentes de um mesmo poema de Victor Hugo. Analise bem as traduções e eleja a sua preferida!

Demain, dès l’aube…
Victor Hugo

Demain, dès l’aube, à l’heure où blanchit la campagne,
Je partirai. Vois-tu, je sais que tu m’attends.
J’irai par la forêt, j’irai par la montagne.
Je né puis demeurer loin de toi plus longtemps.

Je marcherai les yeux fixés sur mes pensées,
Sans rien voir au dehors, sans entendre aucun bruit,
Seul, inconnu, le dos courbé, les mains croisées,
Triste, et le jour pour moi sera comme la nuit.

Je né regarderai ni l’or du soir qui tombe,
Ni les voiles au loin descendant vers Harfleur,
Et quand j’arriverai, je mettrai sur ta tombe
Un bouquet de houx vert et de bruyère en fleur.

Amanhã, desde a aurora…
Victor Hugo

Amanhã, desde a aurora a clarear a campanha,
Eu partirei. Bem vês, eu sei que tu me esperas,
Irei pela floresta, irei pela montanha.
Eu não posso ficar longe de tuas terras.

Andarei, olhos fixos nas cimas descuidadas,
Sem nada ver lá fora, sem ter o que me açoite,
Desconhecido só, curvado, as mãos cruzadas,
E para mim o dia será como uma noite.

Eu não hei de fitar nem o ouro do crepúsculo,
Nem as velas ao longe, de trêmulo fulgor,
Quando chegar porei no sepulcro um ramúsculo
Florido de azevinho e outro de urze em flor.

Amanhã, ao amanhecer…
Victor Hugo

Amanhã, ao amanhecer, quando de branco o campo se banha,
Eu partirei. Sei que você me vê, e sei que espera por mim…
Seguirei pelas florestas e cruzarei a montanha.
Não posso ficar longe de você tanto tempo assim…

Marcharei com os olhos fixos em meu pensamento,
Sem desviar minha atenção, sem ouvir qualquer ruído,
Só e desconhecido, costas encurvadas, as mãos num lamento,
Dia triste como a noite para mim, quando eu tiver partido.

Nem para o dourado da noite que cai eu olharei,
Nem verei as velas que para Harfleur descem em triste ardor…
E quando eu chegar, em seu túmulo colocarei
Um buquê de verde azevinho e urzes em flor.

Amanhã, na alvorada
Victor Hugo

Amanhã, ao branquear na alvorada a campanha,
Eu partirei. Bem sei o quanto esperas por mim.
Irei pela floresta, irei pela montanha.
De ti não posso mais viver tão longe assim.

Olhos fixos, irei pensando ensimesmado,
Sem nada ver em torno e sem ruído ouvir,
Curvo, anônimo, só, dedos entrelaçados,
Triste. As noites, dos dias não vou discernir.

Eu não avistarei nem o ouro do sol que tomba,
Nem as velas ao longe para Harfleur rumando,
E ao chegar colocarei sobre a tua tumba
Um buquê de azevinho e urzes desabrochando.

Poderia escrever muito mais sobre isso, mas sinto que devo encerrar por aqui. Já está ficando muito longo. Se você chegou até aqui, espero que tenha apreciado as reflexões e que tenha se disposto a fazer os exercícios que indiquei. Para finalizar, que tal um pouco mais de arte? Abaixo, um vídeo com a versão musicada do poema acima:

Merci beaucoup et à la prochaine,

Igor Barca.

Respostas do exercício da tradução de frases

a. A vida é bela.
b. Tudo é possível.
c. Uma personalidade ruim destrói um rosto bonito
d. O fim de uma coisa marca o começo de outra.
e. Penso, logo existo.

Igor Barca

Igor Barca

Sou professor de idiomas há mais de 10 anos e, em 2010, comecei a ensinar francês e inglês para o CACD.

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